Imagine se absolutamente tudo te entediasse. Se por conta disso fosse difícil, por exemplo, manter relacionamentos duradouros. Se você sempre resolvesse ler dois ou mais livros de uma vez, se não conseguisse concluir nada do que começou (todos os livros citados, ballet, jazz, sapateado, ginástica olímpica, natação, karatê, italiano, artes circenses, desenho e pintura, flauta, violão, saxofone, musculação, pilates, yoga, clown, pole dance, voluntariado com crianças, curso pré-vestibular, blog, receitas, e-mails, cartas, petições, telefonemas – só pra exemplificar, rs ). Se fosse difícil se concentrar num filme, ou numa aula ou em uma conversa. Se até os sentimentos te enjoassem e você arranjasse motivo pra brigar e ficar triste, e depois tentasse compensar tudo pra se sentir feliz. Se você decidisse parar de beber no sábado e enchesse a cara na terça-feira. Se qualquer ideal fosse difícil de entender e aceitar porque tudo tem dois lados e um deles vai acabar te enchendo o saco. Aí quando sua cabeça tá fazendo barulho demais e você precisa de um POUCO de silêncio, se irrita demais com a falta de consideração das outras pessoas. Quando alguém não acompanha seu raciocínio numa conversa você dá uma de arrogante, se enfurece e perde toda a linha de argumentação. Se até durante o sexo sua atenção se desviasse pra “o que será q tem de comida depois disso aqui porque vai me dar fome puxa vida estou com fome agora mesmo será que ainda tem aquele macarrão do almoço porra tava bom demais pena que acabou o manjericão amanhã preciso comprar mais lá no Pacheco que é do lado da Yoga oba amanhã tem aula vai ser legal OOOMMMMMM eu lavei meu collant ou tá no banheiro esqueci de apagar a luz […]” E que tudo isso te causasse dor de cabeça (física e real).
Agora imagina que por conta disso tudo, você tenha a capacidade de assistir à TV, ler um livro, ouvir música, comer e falar ao telefone, tudo ao mesmo tempo. Que mesmo não participando ativamente de um diálogo porque sua cabeça flutua, você consiga participar de todos os assuntos em um grande grupo de pessoas. Se mesmo sem querer, você possa prestar atenção no que estão dizendo de você, mesmo estando ocupado. Seria normal que tudo isso passasse a te definir.
Eu sou essa pessoa (fica bem claro pela quantidade de interjeições como essa nos meus textos). E isso tem um nome: personalidade conativa.
Exatamente! Minha personalidade foi diagnosticada por um psiquiatra (genial, diga-se de passagem). Por conta da dor de cabeça, as crises de ódio, formigamento, cãimbras e até pra ajudar no meu “projeto de vida” (todo pseudo-pedagogo do caralho ama esse termo) me foi indicado o tratamento medicamentoso. Afinal, “uma moça tão bonita e inteligente tinha que ter um defeitinho [adicione risos e troll face]” [quem fala é o doutor…]*
Como se não bastasse, depois de um tempo fui pedir socorro por ocasião de um exame terrível na faculdade. Não conseguia estudar de jeito nenhum. Cada linha que eu lia dava lugar a uma viagem fantástica (dorgas hehe). As palavras pareciam sambar nas páginas, as linhas se misturavam como numa aglomeração de lagartinhas do deserto. Palavras diferentes ecoavam na cabeça e tiravam a concentração de todo o resto [peculato]. Isso quando eu não pegava no sono. Eu que sempre assisti aulas resolvendo palavras-cruzadas, [PE-CU-LA-TO] pintando mandalas, rabiscando letras de música, entrei em desespero. Como tirar o foco daquele monte de matéria pra obter a concentração de que precisava? [pe-CU-la-to hihihi]
Há há, adivinha?! A solução foi a receita única de ritalina pros dias de estudo e de provas, e a premiação tácita de “transtorno de déficit de atenção”. Aham, sou transtornada.
O problema é exatamente esse. Cada fucking traço da sua personalidade vai ter um diagnóstico. No fim das contas, tudo o que te define passa a ser um problema.
O remédio não te deixa normal dentro do SEU padrão de normalidade. Não tem isso de anular o problema e deixar o resto como está. Sob efeito da droga, você fica no padrão de comportamento que se espera de quem a está utilizando. Pega o exemplo da fluoxetina. 12 em cada 10 pessoas já tomaram ou vão tomar essa merda. Perceba que todas elas agem da mesma maneira. Ficam abobadas, menos preocupadas. Elas não se importam pelo fato de ser segunda feira, que o transporte tá lotado e que o salário é uma bosta. “Hahaha meu stress diminuiu HAHAHAHAHAHA me sinto tão bem HAHA nada me incomoda UHAHAHA to gorda quem se importa hehehehe não tenho fome, que bom.” A droga mais amada e consumida pela classe média cheia de problemas ou pseudo-problemas.
É preciso aprender exatamente o que é “ensinado”, auferir e colecionar tudo que é tido como cultura. Você pode ouvir Mozart todo dia e ler Memórias Póstumas de Brás Cubas MIL VEZES que você é tido como culto, mesmo não sabendo de onde vêm seus nuggets nem do que é feito o fubá. Ou saber discutir sobre o que rola na mídia, mas não ter opinião crítica própria. (No fim das contas, ou você lê os periódicos e acompanha telejornais, ou não passa de um merda desinformado de opinião não-importante).
****A gente é feito pra produzir e consumir (bens, serviços, idéias, culturas, conceitos). Quanto maior a formação acadêmica, maior o status: assim, mais grana se ganha e mais grana se gasta. Vendem a imagem de “sucesso” como o conjunto “carro recém lançado, a roupa da moda, perfume caro, ostentação material, a mulher gostosa” (lógico que se você for mulher, o ideal é ser casada com esse cara; ou fazer sua carreira e ser autônoma, mas feia e infeliz, como nos filmes). Alimentam a você e sua família com fantasias, com o “sonho médio”. Literalmente, com comida que te faz ficar doente. Aí te vendem remédio, que tem efeito colateral, que é melhorado por outro remédio. Daí você morre com seus bens e suas crenças e seu sucesso enfiados no cu. E deixa os filhos escravinhos à sua imagem e semelhança. E se alguém tem uma catarse emocional ao pensar nisso tudo e acaba escrevendo umas mil linhas que ninguém vai ler, claro que É DOIDO! ****
Realmente caro Doutor, prezada sociedade, eu não sou normal. Talvez eu não consiga mesmo passar em outro vestibular, talvez a carreira acadêmica seja pras pessoas disciplinadas e atentas. Já entendi que minha única chance é tomar os remédios, ou começar a procurar alguma atividade laborativa que não exija muito foco (vender artesanato na praça com os hippies lhes parece muito audacioso?). Creio que haja um motivo pras pessoas contestadoras serem colocadas à margem da sociedade, pra não correr o risco de virarem exemplo. Eu não como a sua comida cruel, eu não concordo com sua política suja, eu não tomo os remédios **que me aliviam a dor ou que me fazem sonhar. Dou a cara a tapa por escolher ser quem sou, e provavelmente nunca seja levada a sério. Pro mundo em que você vive, meu carinho é visto como ingenuidade, meus meios de vida parecem radicais, minha ausência de preconceito é fruto de lavagem cerebral, minha falta de religião é rebeldia jovem, meus gostos musicais parecem birra de adolescente, minha repulsa por filmes onde tudo termina bem pode ser corrigida por psicoterapia, minhas roupas sem marca são uma tentativa desesperada de ser cool -já que minha família tem dinheiro e eu poderia usar a marca que quisesse.
Realmente eu não sou normal. Ainda bem.
Pra completar: http://www.youtube.com/watch?v=Q8BwLXLZUWE
*menção a “Do sétimo andar” - Los hermanos.
*menção a “Macaco com navalha” - Dance of days.