filosofia barata sai caro
É, ué!

“Mas já arranjou um novo? Você não vivia dizendo que não precisava e blá blá?”

É, convenhamos que o fato de ser tão bonito e seu estilo “tudo-a-ver-comigo” fizeram com que eu o quisesse muito. Minha cara, meu número.

Tudo que é novo tem uma espécie de “verniz mágico”: é sempre lindo, não se vêem defeitos, não há sujeira. Tenho vontade de aproveitá-lo ao máximo, mas sempre com a nervosa expectativa de ser machucada pela primeira vez. Sim, eu sei que em algum momento ele vai começar a me apertar e me fazer medir cada passo, como todos os outros fizeram. Só então eu posso realmente sentir se é só uma questão de adaptação ou se a dor é grande demais e não vale a pena. Aí eu vou saber se gosto dele tanto assim.

Meu mais novo e querido

 

Só faz sentido pra quem sente

Não lembro qual era o filme, mas as pessoas comentavam seus “momentos” (aqueeles que definem suas vidas). Minha história não é legal a ponto de virar um texto incrível, ou uma história linda pra ser contada aos eventuais netos, porque esse tipo de coisa só faz sentido pra quem sente. Enfim…

Esqueci da cena que se passava, e na mesma hora senti os braços pesados e quentinhos, e o cheirinho de gente que eu identificaria a kilômetros de distância (continua o mesmo, vinte anos depois). Eu tinha três anos, e estava sentada no sofá da sala da frente, esperando que minha mãe me entregasse a mini-pessoa enroladinha em um milhão de cobertores.

Eu não sabia que aquilo viria a definir minha vida e boa parte do que sou. Não imaginava que aquele nenezinho horroroso recém-nascido e recém-chegado ficaria tão parecido comigo que, anos mais tarde, passaríamos por gêmeos. Mas o que eu nunca esperei, de verdade, é que além de me segurar nos ombros pra ver o palco, também me carregaria nas costas quando as coisas pesassem demais.

Estou longe de ser o tipo de pessoa que ama de acordo com o grau de parentesco ou o nível de afinidade familiar. Se eu tivesse um filho, os hormônios decerto justificariam um amor tão grande. Mas esse cara eu escolhi. Escolho todos os dias. Meu melhor amigo, meu irmão.

O dito foi maldito. E não se fala mais nisso.

Era da informação, dos meios de comunicação, das redes sociais, da proximidade remota. Criam-se vínculos e barreiras se rompem. Um mero conhecido passa a grande amigo, enquanto um grande amigo desplugado por vezes se perde no passado.

Até se vê o rosto, mas não se absorve o brilho dos olhos, as maneiras de falar, as expressões. Horas a fio de conversa solta não fazem tanto sentido quanto um único abraço sincero.

Twitter, facebook, e-mail, sms, windows messenger, celular, rádio, telefone (…). Os meios existem, mas quem tem tempo pra administra-los? A vida real não consiste em estar on-line ou não, mas em quantos problemas tem que ser resolvidos num dia pra que se possa dormir tranquilo e começar de novo.

Estudos comprovam que a maior parte do que absorvemos de uma conversa é proveniente da expressão facial e corporal. O interlocutor mede suas palavras e frisa o que necessário segundo as reações quase invisíveis do receptor.

Devemos mesmo confiar aos caracteres a missão de nos fazer entender?

Idéias sempre meio ditas, diálogos sempre meio concluídos, sentimentos sempre meio explicados. Planos meio combinados, encontros meio que topados. Conversas sinceras acabam em discussões irreversíveis, sentimentos expostos são mal interpretados, impressões expostas são tidas como acusações.

Não se pode negar que toda essa facilidade tem seus pontos positivos. Só falta um tutorial de como resolver a merda na vida real.

Desconectar.

Observações de uma mente livre (ou de uma solteira ressentida, como preferir).

A noite agradável de sábado trazia uma assustadora quantidade de pessoas pro Mc Donalds. Abadás pra todos os lados, maquiagens multicoloridas, eventuais bêbados. O cenário mudava tão rapidamente quanto se pode deglutir sanduíche-batata-refrigerante.

Quem não viu os seis amigos chegarem, virarem três, e um sair pra experimentar pela primeira vez um sorvete sabor imperialismo, poderia muito bem pensar que aqueles que ficaram eram um casal.

Na mesa em frente, tomaram assento um menino e uma menina, com expressão magoada, de braços dados e olhar evasivo. Não tinham o que fazer senão prestar atenção no que a jovem efusiva falava em alto e bom som:

“Quando começam a namorar, as pessoas só querem ficar juntas, querem desfrutar ao máximo da companhia uma da outra. Só que chega uma hora em que cada um quer fazer seus programas, curtir suas baladas, dar seus rolês, aproveitar os amigos. É injusto obrigar a outra pessoa a ir junto pra fazer o que não gosta, ou criar briga por causa disso. Dá pra ficar junto às vezes e ter a própria vida também, ninguém precisa ficar grudado o tempo todo. Acho que é uma fase pela qual todo casal deve passar. E se passar por essa, a convivência vai ser ‘de boa’ quase sempre.”

O outro amigo chegou, a conversa continuou, as risadas enchiam o ambiente. Pouco tempo depois, notaram que o casal emburrado já estava aos abraços e beijinhos, e a feição alegre deixava cada um deles milhares de vezes mais bonito.

Aqueles que conversavam eram só amigos, nem perto de namorados ou algo do tipo. Talvez por isso tivessem consciência do “problema” que debatiam. Talvez por isso estavam conversando, e não tratando de se encher de comida pra ir logo pra casa, transar sem desejo e acordar de ressaca.

[Adicione aqui a conclusão que lhe for conveniente]

Pra deitar que nem cachorro

Eu tenho um texto super legal aqui na cabeça. Tem situações frescas e idéias com as quais muitas pessoas podem se identificar. Indignação como sempre, chateação como nunca.

A real é que desde a mais tenra idade eu ouço meu pai dizer “fica na moita” (esse é o tipo de ‘ditado familiar’ que vc segue sem nem pestanejar). E vc vai ficando alí até a hora em que alguém acha a moita e caga em vc. Ficar na moita te torna parte dela. Observar tudo de fora é muito inteligente, mas um tanto quanto estúpido, ao passo que a merda jogada pro alto também pode cair em vc.

Triste isso de só poder ser uma coisa. No meu caso, a empatia briga com a justiça e a sinceridade: Eu poderia lutar pelo que acho justo sendo sincera, mas a empatia pelas pessoas me permite que eu me magoe ao invés de correr o risco de magoá-las.

Nunca vou conseguir achar o conforto que procuro. Continuo rodando feito ouroboros até cair em exaustão (e pra depois me levantar pq tem quem fique mal com a minha inutilidade).

SMS nóia

Ao meu irmão, dia 13 de novembro de 2010, um dia antes da primeira fase do exame da OAB. Foi o primeiro que prestei. Passei. Como se trata da MINHA vida, vou ter que prestar outro pq parece que esse “não vale”.

“A poucas horas da prova pra ser uma vendida de carteirinha. Hoje parece que ‘sonho médio’* foi feita pra mim. Essa dualidade ainda me mata! Sou um paradoxo ambulante. Abono, bonificação, bondade aos olhos dos que fingem não ver. Banalidade, embate, impasse. Qual a cotação econômic do seu ideal? Em quantas cabeças pisar para atingir seu objetivo? Objeto, dejeto, devoto, seu voto. Seu passe, seu sangue, suor, sorriso. Leve seu sonho agora e pague depois do carnaval. Pede aos céus mas não dá à terra. (Vixe fritei, to rebatendo show gospel com ‘Society’**).”

Pra quem quiser saber o que passava na minha cabeça:

* http://www.youtube.com/watch?v=ap-SElgPpxc

** http://www.youtube.com/watch?v=iwUxoSGYQCk

Diagnóstico

Imagine se absolutamente tudo te entediasse. Se por conta disso fosse difícil, por exemplo, manter relacionamentos duradouros. Se você sempre resolvesse ler dois ou mais livros de uma vez, se não conseguisse concluir nada do que começou (todos os livros citados, ballet, jazz, sapateado, ginástica olímpica, natação, karatê, italiano, artes circenses, desenho e pintura, flauta, violão, saxofone, musculação, pilates, yoga, clown, pole dance, voluntariado com crianças, curso pré-vestibular, blog, receitas, e-mails, cartas, petições, telefonemas – só pra exemplificar, rs ). Se fosse difícil se concentrar num filme, ou numa aula ou em uma conversa. Se até os sentimentos te enjoassem e você arranjasse motivo pra brigar e ficar triste, e depois tentasse compensar tudo pra se sentir feliz. Se você decidisse parar de beber no sábado e enchesse a cara na terça-feira. Se qualquer ideal fosse difícil de entender e aceitar porque tudo tem dois lados e um deles vai acabar te enchendo o saco. Aí quando sua cabeça tá fazendo barulho demais e você precisa de um POUCO de silêncio, se irrita demais com a falta de consideração das outras pessoas. Quando alguém não acompanha seu raciocínio numa conversa você dá uma de arrogante, se enfurece e perde toda a linha de argumentação. Se até durante o sexo sua atenção se desviasse pra “o que será q tem de comida depois disso aqui porque vai me dar fome puxa vida estou com fome agora mesmo será que ainda tem aquele macarrão do almoço porra tava bom demais pena que acabou o manjericão amanhã preciso comprar mais lá no Pacheco que é do lado da Yoga oba amanhã tem aula vai ser legal OOOMMMMMM eu lavei meu collant ou tá no banheiro esqueci de apagar a luz […]” E que tudo isso te causasse dor de cabeça (física e real).

Agora imagina que por conta disso tudo, você tenha a capacidade de assistir à TV, ler um livro, ouvir música, comer e falar ao telefone, tudo ao mesmo tempo. Que mesmo não participando ativamente de um diálogo porque sua cabeça flutua, você consiga participar de todos os assuntos em um grande grupo de pessoas. Se mesmo sem querer, você possa prestar atenção no que estão dizendo de você, mesmo estando ocupado. Seria normal que tudo isso passasse a te definir.

Eu sou essa pessoa (fica bem claro pela quantidade de interjeições como essa nos meus textos). E isso tem um nome: personalidade conativa.

Exatamente! Minha personalidade foi diagnosticada por um psiquiatra (genial, diga-se de passagem). Por conta da dor de cabeça, as crises de ódio, formigamento, cãimbras e até pra ajudar no meu “projeto de vida” (todo pseudo-pedagogo do caralho ama esse termo) me foi indicado o tratamento medicamentoso. Afinal, “uma moça tão bonita e inteligente tinha que ter um defeitinho [adicione risos e troll face]” [quem fala é o doutor…]*

Como se não bastasse, depois de um tempo fui pedir socorro por ocasião de um exame terrível na faculdade. Não conseguia estudar de jeito nenhum. Cada linha que eu lia dava lugar a uma viagem fantástica (dorgas hehe). As palavras pareciam sambar nas páginas, as linhas se misturavam como numa aglomeração de lagartinhas do deserto. Palavras diferentes ecoavam na cabeça e tiravam a concentração de todo o resto [peculato]. Isso quando eu não pegava no sono. Eu que sempre assisti aulas resolvendo palavras-cruzadas, [PE-CU-LA-TO] pintando mandalas, rabiscando letras de música, entrei em desespero. Como tirar o foco daquele monte de matéria pra obter a concentração de que precisava? [pe-CU-la-to hihihi]

 

Há há, adivinha?! A solução foi a receita única de ritalina pros dias de estudo e de provas, e a premiação tácita de “transtorno de déficit de atenção”. Aham, sou transtornada.

O problema é exatamente esse. Cada fucking traço da sua personalidade vai ter um diagnóstico. No fim das contas, tudo o que te define passa a ser um problema.

                O remédio não te deixa normal dentro do SEU padrão de normalidade. Não tem isso de anular o problema e deixar o resto como está. Sob efeito da droga, você fica no padrão de comportamento que se espera de quem a está utilizando. Pega o exemplo da fluoxetina. 12 em cada 10 pessoas já tomaram ou vão tomar essa merda. Perceba que todas elas agem da mesma maneira. Ficam abobadas, menos preocupadas. Elas não se importam pelo fato de ser segunda feira, que o transporte tá lotado e que o salário é uma bosta. “Hahaha meu stress diminuiu HAHAHAHAHAHA me sinto tão bem HAHA nada me incomoda UHAHAHA to gorda quem se importa hehehehe não tenho fome, que bom.” A droga mais amada e consumida pela classe média cheia de problemas ou pseudo-problemas.

É preciso aprender exatamente o que é “ensinado”, auferir e colecionar tudo que é tido como cultura. Você pode ouvir Mozart todo dia e ler Memórias Póstumas de Brás Cubas MIL VEZES que você é tido como culto, mesmo não sabendo de onde vêm seus nuggets nem do que é feito o fubá. Ou saber discutir sobre o que rola na mídia, mas não ter opinião crítica própria. (No fim das contas, ou você lê os periódicos e acompanha telejornais, ou não passa de um merda desinformado de opinião não-importante).

****A gente é feito pra produzir e consumir (bens, serviços, idéias, culturas, conceitos). Quanto maior a formação acadêmica, maior o status: assim, mais grana se ganha e mais grana se gasta. Vendem a imagem de “sucesso” como o conjunto “carro recém lançado, a roupa da moda, perfume caro, ostentação material, a mulher gostosa” (lógico que se você for mulher, o ideal é ser casada com esse cara; ou fazer sua carreira e ser autônoma, mas feia e infeliz, como nos filmes). Alimentam a você e sua família com fantasias, com o “sonho médio”. Literalmente, com comida que te faz ficar doente. Aí te vendem remédio, que tem efeito colateral, que é melhorado por outro remédio. Daí você morre com seus bens e suas crenças e seu sucesso enfiados no cu. E deixa os filhos escravinhos à sua imagem e semelhança. E se alguém tem uma catarse emocional ao pensar nisso tudo e acaba escrevendo umas mil linhas que ninguém vai ler, claro que É DOIDO! ****

Realmente caro Doutor, prezada sociedade, eu não sou normal. Talvez eu não consiga mesmo passar em outro vestibular, talvez a carreira acadêmica seja pras pessoas disciplinadas e atentas. Já entendi que minha única chance é tomar os remédios, ou começar a procurar alguma atividade laborativa que não exija muito foco (vender artesanato na praça com os hippies lhes parece muito audacioso?). Creio que haja um motivo pras pessoas contestadoras serem colocadas à margem da sociedade, pra não correr o risco de virarem exemplo. Eu não como a sua comida cruel, eu não concordo com sua política suja, eu não tomo os remédios **que me aliviam a dor ou que me fazem sonhar. Dou a cara a tapa por escolher ser quem sou, e provavelmente nunca seja levada a sério. Pro mundo em que você vive, meu carinho é visto como ingenuidade, meus meios de vida parecem radicais, minha ausência de preconceito é fruto de lavagem cerebral, minha falta de religião é rebeldia jovem, meus gostos musicais parecem birra de adolescente, minha repulsa por filmes onde tudo termina bem pode ser corrigida por psicoterapia, minhas roupas sem marca são uma tentativa desesperada de ser cool -já que minha família tem dinheiro e eu poderia usar a marca que quisesse.

Realmente eu não sou normal. Ainda bem.

Pra completar: http://www.youtube.com/watch?v=Q8BwLXLZUWE

*menção a “Do sétimo andar” - Los hermanos.

*menção a “Macaco com navalha” - Dance of days.

Táxi.

- O único lado bom da “era Maluf” é que a ROTA estava nas ruas e tinha permissão - na verdade era até obrigada - a matar mesmo.

Antes de pensar nas eventuais más-impressões, praticamente vomitei: - Você diz isso pq é branco e tem dinheiro.

Silêncio. Sinal vermelho. O motorista se apressa em fechar os vidros. A área é de favela e próxima a uma cracolândia. Um nóia entre as filas de carros soca o peito com toda a força que consegue.

- Olha esse aí, isso é pedra. Esse aí morre logo.

- Faz isso pra assustar os motoristas e conseguir dinheiro pra fumar outra pedrinha. Morre sem nem ter vivido a vida.

Silêncio. Todos se viram pra evitar a cena. O carro serve como um exoesqueleto. O que anos antes acontecia num bairro bem próximo, hoje fica invisível por conta das grades do condomínio. Só a tela da tv faz lembrar, então a tv a cabo cumpre seu papel. O sinal abre e o carro avança.

O motorista, constrangido pelo silêncio, se adianta no papel de guia turístico:

- Essa aqui é a sede da União das Indústrias.

- Que coisa linda, rapaz. Que arquitetuta! Reflexo da riqueza da cidade, parabéns.

Os fones de ouvido reluziram dentro da bolsa como um convite irrecusável.

Entre ser boazinha e ser trouxa, a merda no ventilador.

“Melhor amigo” que depois de MESES sem me ver, me trata como se eu estivesse na casa dele como o cara da TV a cabo, ou o mino q veio carregar o bujão botijão de gás. Amigo que nunca atende o telefone, não responde as mensagens, não comenta os convites, mas tá sempre pronto pra cobrar. Que nega um rolê com você, mas aparece com OUTRA GALERA, ironicamente no mesmo lugar.

Amigos queridos que precisam resolver questões burocráticas, simplesmente porque é a função deles. Podiam fazer rápido, resolver sua vida, mas postergam. Você vai atrás, eles postergam. Você pede, eles postergam. Você implora, eles postergam. Você cobra, está sendo grossa e ingrata.

Mas eu, tão ~~revoltada~~, pronta pra qualquer discussão, sempre me imponho, né? Nada! Simplesmente não faço nada! É que eu espero o melhor das pessoas, e essas coisas me surpreendem a ponto de me deixar inerte. “Todas as pessoas têm seus motivos e suas devidas personalidades, e só as considero malvadas até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória (na minha mente, isso mesmo.)” Daí eu vou pra casa chorar sozinha.

Gente que me atende mal na loja de roupas porque não tô suficientemente bem vestida. Gente que me trata mal porque não sou obrigada a comer carne e quero saber o que tem na comida. Gente que me trata mal no trânsito, na fila, no elevador, nas redes sociais. Gente.

Eu ignoro, ou até trato bem em contrapartida. Admito que a pessoa esteja num dia ruim, que as coisas estejam difíceis. A pergunta é: quem pensa no meu dia? Quem pensa no que EU vou sentir, se EU vou ficar mal?

Dessa vez o ressentimento me pegou. Quem me faz chorar não é meu amigo. Quem só quer saber de mim quando tem alguém “mais interessante” junto, também não me interessa o suficiente. CHEGA.